O estado do Rio Grande do Sul está progredindo na validação de um inédito produto biológico destinado ao controle do carrapato bovino, que será aplicado nas pastagens com auxílio de drones. A etapa mais recente dos testes foi realizada nesta semana em Hulha Negra, na região da Campanha, representando um avanço significativo em direção a uma alternativa mais ecológica em relação ao uso de produtos químicos tradicionais. O estado é um dos principais focos de infestação de carrapatos bovinos nas Américas.
O projeto, desenvolvido pelo Centro Estadual de Diagnóstico e Pesquisa em Saúde Animal Desidério Finamor (IPVDF), propõe uma nova abordagem: ao invés de focar no tratamento dos animais com químicos, a estratégia se concentra no ambiente onde os carrapatos passam a maior parte de seu ciclo vital.
A iniciativa surge a partir de uma lacuna no mercado. Até o momento, não existem produtos disponíveis em larga escala para a pecuária que visem o controle de parasitas no ambiente.
“A maioria dos carrapatos se encontra nas pastagens, esperando pelos hospedeiros. No entanto, o controle ainda é centrado nos animais”, destaca o diretor do IPVDF e pesquisador, José Reck.
Reck explica que a pesquisa faz uso de micro-organismos presentes no solo, como fungos e bactérias, escolhidos por sua eficácia em atingir os carrapatos sem provocar danos aos bovinos, seres humanos ou ao meio ambiente. Esses agentes biológicos são concentrados em uma formulação específica e aplicados diretamente nas áreas afetadas com o auxílio de drones, aumentando tanto a escala quanto a eficiência da operação.
“Iniciativas dessa natureza são essenciais para desenvolvermos soluções práticas para os desafios diários enfrentados pelos produtores. A atuação técnica e o conhecimento da Secretaria da Agricultura possibilitam não apenas o desenvolvimento, mas também a validação de novas alternativas que são mais sustentáveis e atendem às demandas atuais da pecuária”, ressalta Márcio Madalena, secretário da Agricultura.
<pO projeto foi iniciado no começo de 2025 e atualmente passa por validação em larga escala, com monitoramento contínuo das áreas experimentais. Neste momento, dois tratamentos estão sendo testados com uma avaliação sistemática dos custos e benefícios envolvidos.
“Esperamos continuar os experimentos até julho, quando a chegada do inverno naturalmente resulta na diminuição da população de carrapatos, permitindo uma análise mais precisa dos resultados”, prevê Reck.
A proposta une conhecimentos já estabelecidos na agricultura — onde o uso de micro-organismos para controle de pragas é comum — com técnicas de manejo sanitário animal.
A pesquisa representa um avanço significativo dentro do trabalho iniciado em 2012 no IPVDF, focado no controle biológico dos carrapatos. Até recentemente, as iniciativas estavam voltadas para o desenvolvimento de soluções aplicadas diretamente nos animais. A mudança para um enfoque ambiental sinaliza um novo estágio nas investigações.
Desafio estrutural no RS
A infecção por carrapato bovino no Estado é intensificada pela combinação do uso predominante de raças europeias — que são mais suscetíveis ao parasita — com condições climáticas favoráveis à proliferação do inseto durante todo o ano.
Consequentemente, o Rio Grande do Sul lidera o consumo de carrapaticidas químicos, contribuindo para o desenvolvimento acelerado de resistência. Esse quadro gera um ciclo difícil de ser rompido: quanto mais se utiliza químicos, menor se torna sua eficácia ao longo do tempo.
Gabriel Fiori, médico veterinário da Seapi, enfatiza que experimentos como este com insumos biológicos são estratégias fundamentais frente à crescente resistência aos acaricidas químicos tradicionais e à demanda por práticas sustentáveis que reduzam resíduos nos produtos derivados de animais.
Caminho rumo à sustentabilidade
Através da Seapi, o governo estadual tem investido em alternativas ao controle convencional do carrapato bovino. Isso inclui o uso racional de medicamentos e práticas como a rotação das pastagens. O novo projeto complementa esse esforço ao oferecer uma solução baseada em princípios biológicos que promete minimizar impactos ambientais, riscos à saúde e custos futuros.
