
Oito anos depois de sobreviver a um tiro no abdômen na saída da escola, Évellyn Moraes Vilas Boas viveu uma noite que a família esperava celebrar: seus 15 anos. A comemoração, em Caxias do Sul, reuniu familiares, amigos e pessoas que acompanharam uma trajetória marcada pela recuperação e pelo apoio recebido desde a infância.
Para a mãe, Samara Vilas Boas, chegar a esse momento também significa olhar para trás e lembrar de uma tarde que mudou a rotina da família.
“Foi bem desesperador, bem complicado, bem difícil. Quem é pai sabe como funciona essa questão de filho, a gente acaba sofrendo bastante”, relembra.
O tiro na saída da escola
Évellyn tinha 6 anos quando foi baleada no fim da tarde de 29 de março de 2018, em frente à Escola Municipal de Ensino Fundamental Luciano Corsetti, no bairro Kayser.
Segundo o Ministério Público do Rio Grande do Sul, um homem que estava no local era o alvo dos disparos feitos por um dos ocupantes de uma motocicleta. Évellyn e outra estudante, também de 6 anos, foram atingidas durante a ação. A segunda criança sofreu ferimento de raspão na cabeça.
Samara lembra que a filha aguardava o transporte escolar após o fim das aulas. Era período de Páscoa, e nada indicava que aquela saída da escola seria diferente das outras.
“Ela estava ali na frente, no muro, aguardando a van passar. Daí aconteceu aquela tragédia. Ela e a coleguinha estavam ali e as duas foram atingidas”, conta.
Évellyn foi atingida no abdômen e precisou passar por cirurgia de urgência. Registros da época apontam que ela permaneceu internada no Centro de Terapia Intensiva (CTI) durante parte da recuperação.
“A gente ficou mais desesperado”
As horas seguintes ao disparo foram de incerteza para a família. Segundo Samara, a cirurgia ocorreu ainda na primeira noite de internação. Nos dias seguintes, porém, o quadro inspirou preocupação.
“Ela passou pela cirurgia logo na primeira noite. Deu tudo certo. No sábado, ela ficou um pouquinho ruim e disseram que era um quadro bem delicado, porque ela era muito novinha. Foi onde a gente ficou mais desesperado”, relata.
Foi naquele período que parentes, integrantes da igreja frequentada pela família e moradores de Caxias do Sul passaram a acompanhar a recuperação da menina.
A mobilização também chegou às redes sociais. Para Samara, as mensagens recebidas naquele momento permanecem na memória da família.
“A gente começou a conversar com os familiares, entrou em contato com a igreja e formou uma corrente de oração. O pessoal foi para o Facebook e toda a comunidade ficou sabendo, até fora de Caxias do Sul”, recorda.
Projétil ficou alojado por cerca de um ano
Mesmo depois da alta hospitalar, a família ainda conviveu com uma consequência do disparo. Conforme Samara, o projétil permaneceu alojado no corpo da filha por aproximadamente um ano.
A mãe conta que os médicos decidiram não fazer a retirada imediatamente. Mais tarde, quando a bala se deslocou para uma região de acesso mais fácil, o procedimento pôde ser realizado.
Um dos momentos que mais marcaram Samara foi saber o quanto o projétil havia passado próximo da coluna da criança.
“Faltaram três centímetros, o doutor disse, para alcançar a coluna dela”, afirma.
Segundo a mãe, Évellyn não ficou com limitações provocadas pelo episódio e hoje leva uma rotina normal.
“Está alegre, contente, agradecida”, resume Samara.
A adolescente, inclusive, continuou estudando na mesma escola onde ocorreu o ataque.
Dos dias no hospital à comemoração dos 15 anos
A festa de debutante trouxe outra imagem para uma história que, durante anos, esteve associada à violência sofrida ainda na infância.
Desta vez, a expectativa da família não estava em torno de uma cirurgia ou de notícias médicas. Era pela chegada da aniversariante, pelo vestido, pelas fotografias e pelo encontro com familiares e amigos.
A comemoração foi viabilizada pela Dateli Eventos e por cerca de 15 parceiros que se mobilizaram para realizar a festa. Integrantes da equipe também participaram voluntariamente da organização.
O proprietário da casa de eventos, Cris Dateli, afirma que a proposta era proporcionar à adolescente um momento especial.
“Independentemente da história, da tragédia, ela é merecedora de ter um evento, de ter o momento dela. A ideia era ajudar uma família, ajudar uma princesa a realizar o sonho”, afirmou.
Segundo Dateli, a reação de Évellyn durante a festa mostrou o significado da mobilização.
“Pelo tamanho do sorriso dela que a gente viu hoje, a gente já entendeu que deu tudo certo”, disse.
Para a família, porém, o significado da noite foi além do evento.
Depois da comemoração, familiares voltaram a agradecer às pessoas que acompanharam a recuperação de Évellyn quando ela ainda tinha 6 anos.
“Será a voz da nossa gratidão a Deus e ao povo caxiense que se uniu a nós quando precisávamos de fé e força. Deus faz milagres, e a Evy é prova disso”, escreveu a família em uma mensagem.
Oito anos atrás, Samara e os familiares aguardavam por notícias sobre a recuperação de uma menina de 6 anos.
Agora, aos 15, Évellyn segue a vida ao lado deles estudando, sorrindo e construindo novas lembranças.


