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Suspeito na Fames-19 teria financiado organização criminosa com mais de R$600 mil, revela a PF

Cotidiano GauchoCotidiano Gauchonovembro 26, 2024 1765 Minutes read0

A 4TPag, uma empresa com vínculos ao Primeiro Comando da Capital (PCC), recebeu R$ 615 mil de Welber Guedes, enquanto a VB Holding, também associada ao PCC, transferiu R$ 165 milhões.

Após três meses do início da Operação Fames-19, que apura um desvio de R$ 5 milhões em recursos destinados à compra de 1,6 milhão de cestas básicas durante a pandemia da Covid-19 pelo governo do Tocantins, novas informações estão emergindo sobre o caso. Duas das empresas investigadas estão ligadas ao PCC, conforme revelado por investigações realizadas pela Polícia Civil de São Paulo.

Conforme o inquérito da Operação Fames-19 da Polícia Federal (PF), ao qual foi possível ter acesso, as empresas sob investigação são a VB Inter Holding e a 4TPag. Juntas, elas movimentaram quase R$ 1 milhão no contexto da operação.

Matie Obam é identificada como proprietária das duas empresas e é considerada laranja em um esquema operado pelo PCC, liderado por seu padrasto, João Gabriel de Mello Yamawaki. O nome dela está associado a outras empresas que também têm ligações com o crime organizado no Tocantins. Ambas as instituições realizaram transações financeiras para Welber Guedes de Morais, que é citado no inquérito como um dos principais responsáveis pela articulação do esquema e pela conexão entre as empresas e os indivíduos investigados na Operação Fames-19.

Em 2019, Welber Guedes foi detido durante a Operação Via Avaritia, que investigava corrupção e desvio de verbas públicas em contratos relacionados à pavimentação asfáltica no Tocantins. Na ocasião, sua prisão foi posteriormente revogada pelo juiz Fabiano Gonçalves Marques, que considerou que Welber era réu primário com “bons antecedentes”, residência fixa e ocupação lícita, além de afirmar que sua liberdade não comprometeria as investigações.

As duas empresas identificadas como supostamente pertencentes ao PCC estão registradas na Receita Federal com endereços no JK Business Center, ocupando salas adjacentes: a VB Inter Holding ocupa a sala 1101-A e a 4TPag está na sala 1101-B. A primeira é registrada como uma companhia de “produção de filmes”, enquanto a segunda atua como “consultoria em tecnologia da informação”.

Recentemente, Matie Obam enfrentou restrições significativas que incluem a proibição de deixar a cidade de Mogi das Cruzes (SP), onde reside com sua família. De acordo com investigações policiais, seu padrasto João Gabriel Yamawaki é quem realmente opera as empresas vinculadas ao PCC. A família morava em um condomínio luxuoso em Mogi das Cruzes.

João Gabriel Yamawaki foi detido em agosto junto com mais doze pessoas sob suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC. Supõe-se que esses recursos estivessem sendo utilizados para financiar campanhas eleitorais em cidades do interior paulista.

A Polícia Civil de Mogi das Cruzes informou que o esquema financeiro operado pela fintech 4TBank movimentou mais de R$ 8 bilhões nos últimos cinco anos. Esse esquema utilizava empresas fictícias para encobrir operações financeiras ilegais, incluindo as duas companhias registradas em Palmas envolvidas na Operação Fames-19. Administradas por Matie Obam, essas empresas atuavam como “braços” da fintech e estavam envolvidas em atividades diversas que iam desde produção alimentícia até consultoria contábil, frequentemente usando nomes reais de estabelecimentos comerciais em Palmas para disfarçar suas operações.

A investigação começou após uma apreensão significativa de drogas ocorrida em 2023 na casa de Fabiana Manzini, esposa de Anderson Manzini — considerado um dos líderes do PCC e preso desde 2002.

Anderson Manzini é visto como o principal auxiliar de João Gabriel. Durante a busca na residência da esposa do líder do PCC foram encontrados 28 kg de maconha e 8 kg de cocaína.

Conexão com o Tocantins

A relação entre as duas empresas e o Tocantins está diretamente ligada ao empresário Welber Guedes de Morais. Durante as investigações da Operação Fames-19 — que incluiu a quebra do sigilo bancário do empresário — foram identificados depósitos financeiros em sua conta totalizando R$ 4.029.275,22 provenientes de várias companhias contratadas pelo governo do Tocantins para fornecer cestas básicas.

 

Relatório apresentado no inquérito policial da Fames-19 | Imagem: Jornal Opção Tocantins

Além disso, segundo as apurações realizadas pelas autoridades, Welber Guedes recebeu depósitos no valor total de R$ 165 mil da empresa VB Inter Holding Ltda., enquanto ele próprio transferiu R$ 615 mil para a 4TPag — ambas ligadas ao PCC.

 

Tabela representando transações financeiras realizadas por Welber com empresas supostamente ligadas ao PCC | Tabela: Jornal Opção Tocantins

Relação com o governador e sua família

 

 

Dentre os documentos examinados na investigação da Polícia Federal | Imagem: Jornal Opção Tocantins

A ligação entre o governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) e sua família surgiu através dos depósitos feitos por Welber Guedes em favor deles. Considerado um dos principais operadores do esquema investigado pelas autoridades, Welber recebia diretamente valores provenientes das empresas beneficiadas pela dispensa licitatória destinada à aquisição das cestas básicas.

No âmbito do inquérito policial, Welber Guedes é considerado suspeito por lavagem de dinheiro e teria recebido cerca de R$10.677.799,00 através de duas empresas contratadas pelo governo e outra utilizada nas transações fraudulentas; esse montante foi transferido por meio de 249 operações bancárias identificadas pela PF.

Entre os depósitos realizados por Welber estão valores destinados tanto ao governador quanto aos seus filhos e também ao empresário Joseph Madeira — este último possui contratos recentemente renovados tanto com o governo estadual quanto com a Assembleia Legislativa do Tocantins. Um depósito específico no valor de R$5 mil para Wanderlei Barbosa ocorreu no dia 3 de novembro de 2020.

Welber também fez transferências para Tiago da Silva Costa, então secretário da Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (Setas) durante os contratos para aquisição das cestas básicas.

Tiago da Silva Costa foi responsável pelas contratações das duas companhias pertencentes a Welber Guedes que firmaram contratos com o Estado. O ex-secretário aparece ainda nas investigações realizando um depósito no valor total de R$10.700,00 para Joseph Madeira.

Ainda não houve retorno dos envolvidos mencionados nesta matéria ao contato feito pelo veículo responsável pela apuração até o fechamento deste texto; mantemos espaço aberto para suas considerações.

 
 

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