A deriva de herbicidas hormonais está provocando um impacto financeiro significativo na vitivinicultura do Rio Grande do Sul, estimado em R$210 milhões entre 2018 e 2025. Essa conclusão foi revelada por um estudo inédito do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS). A pesquisa engloba dados oficiais, georreferenciamento, entrevistas com produtores e projeções econômicas para avaliar os danos ao setor.
Perdas acumuladas e projeções de risco
Financiado pela Fundação Empresa-Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FEENG) e realizado por pesquisadores do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) Campus Bento Gonçalves, o estudo revela que as perdas oficialmente registradas alcançam R$161,6 milhões. Contudo, ao incluir custos indiretos como renovação de vinhedos e diminuição da produtividade, o total de prejuízos sobe para R$210 milhões. Além disso, as previsões para os próximos cinco anos sugerem que, sem alterações no cenário atual, o setor poderá enfrentar mais R$150,1 milhões em perdas.
Esse estudo foi viabilizado pelo Termo de Colaboração FPE nº 4837/2022 entre o Consevitis-RS e a Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi). A coordenação ficou a cargo da professora doutora Shana Sabbado Flores, juntamente com o professor doutor Leonardo Cury da Silva e o doutor Jorge Viel. Após analisar mais de 400 registros oficiais de ocorrências, a pesquisa estima que pelo menos 700 hectares de vinhedos estejam sendo afetados diretamente pelos episódios, embora os pesquisadores alertem que a verdadeira extensão dos danos pode ser ainda maior devido à subnotificação.
Mapeamento e convívio com culturas extensivas
A análise dos danos é desigual no território gaúcho, apresentando maior gravidade nas áreas onde a produção de uvas coexiste com cultivos extensivos que utilizam herbicidas hormonais. Os impactos foram registrados em regiões como Campanha Gaúcha, Região Central, Serra do Sudeste, Campos de Cima da Serra, Planalto, Missões e algumas áreas pontuais na Serra Gaúcha.
Os dados indicam que a deriva de herbicidas não deve ser considerada um evento isolado; na verdade, representa um risco contínuo para a atividade vitivinícola. Esse fenômeno influencia diretamente o planejamento dos produtores, afetando a expansão das áreas plantadas, lançamentos de novos rótulos, investimentos em enoturismo e iniciativas relacionadas à indicação geográfica. Os produtores entrevistados expressaram ter adiado ou interrompido investimentos devido à incerteza causada pelas pulverizações realizadas nas proximidades.
Evidências técnicas e diálogo institucional
A importância de mensurar esses problemas é enfatizada por Shana. Ela observa que as reclamações sobre os danos causados pela deriva já eram conhecidas anteriormente; no entanto, agora é possível transformar essa percepção em evidência técnica. O estudo integra análises territoriais com projeções econômicas para entender como esse fenômeno afeta as diferentes regiões produtivas.
“As informações trazidas pelos produtores sobre os efeitos da deriva já eram notórias; contudo, este estudo possibilitou converter essa percepção em dados técnicos concretos. Pela primeira vez conseguimos unir informações oficiais com análises territoriais e previsões econômicas para compreender como esse fenômeno impacta não apenas a produção de uvas mas também as decisões sobre investimentos e o desenvolvimento da vitivinicultura em várias regiões do Rio Grande do Sul”, destaca a Dra. Shana.
Segundo Maicon Galiott, presidente do Consevitis-RS, o mapeamento detalhado das consequências é fundamental para o planejamento futuro da vitivinicultura. Galiott ressalta que essa pesquisa fortalece o setor ao fornecer dados técnicos robustos que são essenciais para fomentar um diálogo institucional eficaz e buscar soluções que assegurem uma convivência harmoniosa entre a vitivinicultura e outras culturas agrícolas presentes no Estado.
