Os produtores de uva da Serra Gaúcha estão lidando com um panorama repleto de incertezas, resultantes do aumento nos custos de produção, das condições climáticas desfavoráveis e dos atrasos nos pagamentos pela uva colhida na última safra. Essa situação gera preocupações entre os agricultores de Farroupilha, Caxias do Sul e Flores da Cunha.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Farroupilha (Sintrafar), Márcio Ferrari, afirmou que muitos viticultores estão sem recursos financeiros suficientes para manter suas plantações e preparar-se para a próxima colheita.
Durante uma entrevista no programa Bom Dia Trabalhador, veiculado pela Rádio Viva 94,5 FM na manhã desta terça-feira (20), Ferrari enfatizou que o frio fora de época tem gerado ainda mais apreensão entre os produtores, devido ao aumento do risco de doenças nas vinhas e à necessidade de aumentar os gastos com tratamentos fitossanitários.
Além das dificuldades climáticas, a lentidão no pagamento das uvas entregues às vinícolas agrava a situação econômica das famílias. Segundo o dirigente sindical, as empresas do setor justificam os atrasos alegando problemas na comercialização e um cenário de mercado desfavorável.
“Os viticultores estão muito apreensivos. O clima não está ajudando, este frio fora de época é terrível para a produção de uva, só traz doenças e custos. Tem ainda a demora, o não pagamento da última safra colhida da uva, deixando agricultores sem ter como produzir a próxima”, declarou.
Famílias enfrentam dificuldades financeiras
Ferrari mencionou que a falta de recursos já está impactando as despesas essenciais de várias famílias que dependem da viticultura como sua principal fonte de sustento. Ele relatou ter recebido relatos de agricultores que enfrentam dificuldades até mesmo para garantir alimentação para suas famílias.
“Algumas famílias estão sem ter como pagar a comida para se manter. A monocultura da uva se instalou em alguns lugares da região e estes agricultores dependem basicamente desta renda para viver. Buscar dinheiro no banco para produzir está muito caro”, comentou.
O presidente do Sintrafar também expressou sua preocupação quanto à falta de iniciativas que possam apoiar os produtores. Ele destacou que os sindicatos rurais da região estão se mobilizando para encontrar soluções viáveis.
Ferrari afirmou que uma vinícola localizada em Flores da Cunha teria notificado sobre suas dificuldades em vender a produção e que não conseguiria honrar os pagamentos conforme acordado. O dirigente teme que os valores referentes à última safra não sejam quitados dentro do prazo estipulado.
“Todos os sindicatos da região estão se unindo, principalmente com uma grande vinícola de Flores da Cunha com quem entramos em contato; este é o caso mais grave. Eles relatam que não estão conseguindo vender, afirmam não ter alternativas e não vão conseguir pagar o que haviam prometido. Nosso temor é que nem consigam pagar pela uva da última safra”, comentou.
Dificuldade para financiar a próxima safra
A falta dos pagamentos impacta diretamente o planejamento da colheita futura. Os produtores precisam cuidar dos parreirais, adquirir insumos e realizar tratamentos necessários, mas enfrentam grandes desafios financeiros enquanto aguardam receber pelos produtos já entregues.
“A dificuldade é equilibrar essa conta: produção e estocagem da próxima safra, além do recebimento pela última”, sintetizou Ferrari.
O dirigente sindical também alertou sobre outro problema potencial que pode afetar o setor nos próximos anos: a escassez de mão de obra durante o período das colheitas. Para ele, as dificuldades econômicas vividas pelos agricultores podem levar à diminuição do interesse por parte dos trabalhadores em atuar nesse segmento.

