A partir desta sexta-feira (1º), entra em vigor o tratado comercial entre o Mercosul e a União Europeia, um marco que culminou após mais de 25 anos de negociações. Este acordo conecta economias que, juntas, representam um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 22,4 trilhões e abrangem uma população superior a 700 milhões de indivíduos.
Com a implementação deste acordo, uma das maiores zonas de livre comércio do mundo é criada. Espera-se que as exportações industriais do Rio Grande do Sul para a Europa cresçam em cerca de US$ 801,3 milhões nos próximos 15 anos.
Alterações nas exportações brasileiras
Estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que mais de 80% dos produtos brasileiros destinados ao mercado europeu terão suas tarifas de importação eliminadas nesta fase inicial. Dentre os 2.932 itens beneficiados imediatamente, aproximadamente 93% são bens industriais, enquanto os demais englobam produtos alimentícios e matérias-primas.
Os setores que mais se destacarão nesta primeira fase incluem:
- Máquinas e equipamentos (21,8% dos produtos com isenção imediata)
- Alimentos (12,5%)
- Metalurgia (9,1%)
- Máquinas, aparelhos e materiais elétricos (8,9%)
- Produtos químicos (8,1%)
No segmento de máquinas, quase 96% das exportações brasileiras para a Europa não terão tarifas aplicadas. Essa categoria inclui compressores, bombas industriais e diversos componentes mecânicos.
Consequências na Serra Gaúcha: vitivinicultura gera debates
Novo horizonte para exportação de sucos de uva e vinhos
No contexto da Serra Gaúcha, as reações ao acordo são mistas: enquanto alguns celebram as oportunidades de ampliar a venda externa de sucos de uva e espumantes, outros expressam receios sobre a competitividade no mercado nacional.
“Exportar vai deixar de ser uma opção; se tornará uma obrigação. As empresas precisarão focar no mercado internacional devido à crescente concorrência interna”, observa Lucio Motta, gerente de exportação da vinícola Miolo localizada em Bento Gonçalves.
Motta ressalta que o setor terá um período para se adaptar às mudanças, já que as reduções tarifárias sobre o vinho ocorrerão gradualmente ao longo de até 12 anos.
Sucos de uva ganham destaque significativo
No novo cenário comercial, os sucos de uva emergem como um dos principais produtos a serem exportados. A Cooperativa Vinícola Aurora destaca que cerca de 70% das uvas recebidas são transformadas em suco integral.
“Atualmente, o suco integral e concentrado já é exportado em volumes reduzidos para mercados específicos como Estados Unidos, Armênia e Reino Unido”, afirma Alexandre Angonezi da Cooperativa Vinícola Garibaldi. “O acordo pode abrir novas portas na Europa para este produto devido à sua qualidade superior em relação aos europeus por conta do cultivo da uva híbrida americana.”
No Polo de Sucos da Serra — que abrange Farroupilha — as exportações já alcançaram US$ 651,7 mil em 2025.
Preocupações com a concorrência europeia
A entrada dos vinhos europeus a preços mais acessíveis gera inquietação entre os produtores locais. Atualmente, o Brasil enfrenta uma tarifa de 27% para importar vinhos da Europa Ocidental; esta taxa diminuirá progressivamente com o novo acordo.
“Enquanto muitos países europeus têm políticas favoráveis aos seus produtores, nós não contamos com tais benefícios. Isso poderá resultar na entrada massiva de vinhos europeus a preços inferiores, colocando em risco o sustento de milhares de famílias na Serra Gaúcha”, defende André Larentis, presidente da Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale).
A indústria solicita ao governo brasileiro uma revisão na carga tributária aplicada ao vinho nacional e a criação de medidas como seguros agrícolas para equilibrar as condições competitivas.
Indústrias metalmecânica e calçadista também se beneficiam com crescimento esperado
A indústria metalmecânica e o setor calçadista no Rio Grande do Sul também estão entre os favorecidos pelo acordo. De acordo com informações da Fiergs, a aquisição de máquinas e componentes provenientes da Europa se tornará mais acessível. Isso deve fomentar a modernização das fábricas na Serra. Com equipamentos mais eficientes em operação, espera-se um aumento na produtividade e competitividade tanto no polo moveleiro em Bento Gonçalves quanto no polo metalmecânico em Caxias do Sul nos próximos anos.

