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O medo da violência: 80% dos brasileiros evitam sair à noite

Cotidiano GauchoCotidiano Gauchoagosto 5, 2026 1254 Minutes read0

Uma pesquisa recente revela que 80% da população brasileira sente receio de sair à noite devido à violência. O levantamento, divulgado na sexta-feira (31), também indica que 60% dos entrevistados deixaram de frequentar locais que desejavam visitar e 30% evitaram o uso de transporte público por conta da insegurança.

Os resultados fazem parte do estudo intitulado “Mulheres, polícia e facções — O que está no centro do debate sobre segurança pública?”, conduzido pelos institutos Update e Fogo Cruzado. A pesquisa abrangeu 2 mil pessoas em diversas regiões do Brasil.

Demandas por punição e desconfiança nas respostas

Os dados apontam que a sociedade clama por medidas punitivas, mas demonstra uma crescente desconfiança em relação à eficácia das soluções convencionais para a segurança pública.

Apenas 41% dos participantes acreditam que a polícia oferece proteção adequada à população. Além disso, apenas 22% notaram uma melhora na segurança após ações policiais.

As opiniões sobre as estratégias para combater a violência são bastante variadas. Para 49% dos entrevistados, as prisões têm um papel importante na diminuição da criminalidade, enquanto 45% acreditam que educação e políticas sociais são fundamentais para esse fim.

O estudo revela que a falta de confiança no sistema judiciário e a sensação de impunidade levam muitos a ver a punição imediata como uma das poucas alternativas viáveis, mesmo entre aqueles que reconhecem as limitações das operações policiais.

Maria Isabel Couto, diretora de dados e transparência do Instituto Fogo Cruzado, ressalta a importância de incluir discussões sobre medidas preventivas e políticas públicas nesse debate.

“Essas penas não contribuem para a prevenção e não diminuem o medo. Há uma carência de ideias relacionadas a políticas públicas, e esse é um caminho crucial para aprimorar o debate sobre segurança no país”, declara.

Riscos específicos enfrentados pelas mulheres

Embora tanto homens quanto mulheres relatem níveis semelhantes de insegurança geral, o estudo revelou diferenças nas formas de violência temidas e nas experiências vivenciadas.

As mulheres expressaram um maior temor em relação à violência doméstica, com uma diferença de 11 pontos percentuais em comparação aos homens. Em relação ao abuso sexual, essa diferença foi de seis pontos percentuais.

Além disso, as mulheres relataram ter sofrido mais assédio, abuso físico ou violência psicológica em comparação aos homens.

Para 92% dos participantes da pesquisa, as mulheres enfrentam riscos únicos que os homens não conhecem. Esse resultado reflete uma ampla compreensão acerca da maior vulnerabilidade feminina à violência no país.

Impacto do medo nos deslocamentos e oportunidades

Ambientes como ônibus, metrôs e trens são percebidos como os mais inseguros pelas mulheres.

Entre as mulheres entrevistadas, 39% afirmaram sentir insegurança ao utilizar o transporte público, enquanto esse percentual foi de apenas 26% entre os homens.

As participantes também mencionaram mudanças nos trajetos habituais, restrições quanto aos horários e desistência de atividades recreativas. Algumas admitiram ter recusado propostas de trabalho ou estudo quando isso implicava sair cedo ou retornar tarde através de áreas consideradas perigosas.

O levantamento indica que o medo influencia negativamente na mobilidade diária das pessoas, afetando trabalho, estudos e lazer. Muitas entrevistadas associaram essa realidade ao desgaste emocional, ansiedade e estresse; algumas até relataram precisar de apoio médico ou psicológico.

A pesquisa destaca que quando uma mulher opta por não aceitar um emprego ou evitar o transporte público ou certos locais, é a insegurança que define os limites da sua rotina.

Reconhecimento das mulheres como parte da solução

O estudo revela ainda que 70% das mulheres acreditam ter propostas melhores para melhorar a segurança pública.

Em contraste, apenas 13% dos homens compartilham dessa visão.

Durante as discussões em grupo, as participantes associaram lideranças femininas a uma maior sensibilidade no enfrentamento da violência contra as mulheres.

Elas apresentaram sugestões que ampliam o conceito tradicional de segurança, incluindo melhorias na iluminação pública, no transporte coletivo, revitalização de áreas urbanas abandonadas, além da educação e fortalecimento das redes comunitárias para prevenir a violência de gênero.

Carol Althaller ressalta que as mulheres não devem ser vistas apenas como vítimas; elas são as principais adaptadoras da rotina em função do medo.

“Quando as mulheres discutem essa questão, surgem dimensões frequentemente negligenciadas no debate central. Isso não substitui outras abordagens em segurança pública, mas evidencia que proteger a população envolve garantir condições reais para circulação e convivência nas cidades”, comenta.

Relevância da segurança pública nas eleições

Para 93% dos entrevistados, a segurança pública será um assunto crucial nas eleições previstas para 2026.

Os institutos envolvidos ressaltam que as mulheres representam a maior parte do eleitorado e terão influência significativa na disputa eleitoral. As experiências relatadas neste estudo ajudam a evidenciar preocupações relevantes que poderão ser abordadas durante o debate político.

Além das duas mil entrevistas realizadas, o levantamento incluiu duas etapas qualitativas: uma delas focou exclusivamente em ouvir mulheres sobre os impactos da insegurança em seu dia-a-dia; outra reuniu grupos distintos de homens e mulheres em várias capitais para discutir questões relacionadas à segurança e à violência armada.

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