
O avanço das mudanças climáticas globais e a ocorrência frequente de eventos meteorológicos extremos exigem adaptações contínuas da agricultura na Serra Gaúcha. Diante do cenário de forte estiagem e incêndios que atingiram polos produtores na Europa — como na França, onde os impactos reformatam o cenário de regiões tradicionais como Champagne —, a vitivinicultura brasileira volta a atenção para a gestão de riscos e para a preservação das características essenciais das uvas cultivadas em Bento Gonçalves, como o frescor e a acidez indispensáveis para a elaboração de espumantes e vinhos finos.
Situação na Europa

O calor extremo e a redução das chuvas anteciparam a vindima de 2026 na região de Champagne, na França. Com isso, os produtores iniciaram a colheita na primeira semana de agosto, no período mais precoce já registrado pela denominação. Tradicionalmente, a retirada das uvas ocorre entre setembro e outubro. Neste ano, porém, os viticultores precisaram antecipar os trabalhos para preservar a acidez e o equilíbrio necessários à produção do champanhe.
Em junho, algumas áreas de Champagne registraram até 40°C. Além disso, a estiagem reduziu o tamanho dos frutos e aumentou a concentração de açúcares. Por consequência, os produtores também precisaram reorganizar a logística da colheita, que depende majoritariamente de trabalho manual.
De acordo com o relatório de 2026 do Comité Champagne, 266,1 milhões de garrafas foram comercializadas na França e no exterior em 2025, movimentando US$ 6,6 bilhões. Desse total, as exportações responderam por 56,5% das remessas. A região representa cerca de 8% do consumo mundial de espumantes em volume e 31% em valor. Além disso, o setor emprega aproximadamente 30 mil pessoas diretamente e mobiliza cerca de 100 mil trabalhadores sazonais durante a vindima.
Neste ano, entretanto, a produção também sofreu perdas provocadas pela geada registrada na primavera. Segundo informações do setor, o fenômeno comprometeu cerca de 30% da colheita. Somada ao calor e à seca, a ocorrência deve ampliar a redução da produtividade. David Chatillon, presidente da Union de Champagne Houses, destaca o impacto conjunto dos eventos climáticos. “Mas não é apenas por causa da seca. Perdemos 43% da produção potencial com as geadas da primavera, e a seca claramente tornou o problema da menor produtividade ainda pior”, afirma.
Maturação acelerada e alternativas

Alexandre Gobillard, diretor de produção da Gobillard & Fils, aponta que o início da colheita em agosto representa uma mudança significativa em relação ao calendário tradicional de Champagne. Segundo ele, a videira precisa de disponibilidade regular de água para se desenvolver. No entanto, quando enfrenta estresse hídrico, a planta utiliza parte da água disponível nos frutos para manter seu funcionamento. Dessa forma, os bagos concentram mais açúcar e aceleram o processo de maturação.
Consequentemente, os produtores têm menos tempo entre o amadurecimento e a colheita. Por isso, precisam mobilizar os trabalhadores com antecedência e acelerar as operações nos vinhedos. A medida busca retirar as uvas no momento adequado e evitar que o avanço da maturação altere as características necessárias à produção do espumante.
Além de Champagne, outras regiões produtoras também enfrentaram condições semelhantes. Na Itália, por exemplo, o calor levou produtores de espumantes a antecipar a vindima. Em alguns casos, os trabalhadores passaram a colher as uvas durante a noite, quando as temperaturas ficam mais baixas.
Diante desse cenário, o setor busca alternativas para reduzir os impactos das mudanças climáticas. Entre as medidas estão investimentos em práticas sustentáveis, agricultura regenerativa, redução das emissões de carbono e preservação da diversidade genética das variedades utilizadas na produção.
Além disso, algumas vinícolas recorrem às reservas de vinho para compensar parte das perdas provocadas pelos eventos climáticos. Maxime Toubart, co-presidente do Comité Champagne, explica que os produtores podem utilizar vinhos armazenados em cubas para substituir parte da produção perdida. Assim, a estratégia ajuda o setor a manter a disponibilidade do produto mesmo diante de uma safra marcada por geadas, calor intenso e estiagem.
O cenário na Serra Gaúcha

Ao mesmo tempo em que a crise europeia expõe um panorama desafiador, abre-se uma janela de oportunidade para o Brasil colocar os seus espumantes em destaque no mercado global. Para enfrentar a instabilidade do regime térmico e hídrico no Rio Grande do Sul, a Cooperativa Vinícola Aurora prioriza o mapeamento de microclimas e a recomendação de variedades mais resilientes para os produtores associados. A estratégia busca associar a escolha de cultivares às especificidades de cada área de plantio, evitando perdas decorrentes de geadas tardias ou excesso de precipitação.
O gerente agrícola da cooperativa, Maurício Bonafé, explica que o comportamento do clima local exige acompanhamento constante, embora a região não enfrente as condições extremas registradas em áreas áridas do continente, como o norte da Argentina ou do Chile. Segundo Bonafé, os últimos anos apresentaram oscilações acentuadas no microclima gaúcho. “Se pegarmos os últimos 5 anos, nós passamos por estiagem, passamos por excesso de volume de chuva, passamos por excesso de frio e falta do mesmo. É inegável que esteja acontecendo alguma mudança ou alguma oscilação. Mas o detalhe que nós temos na nossa região, em Bento Gonçalves, é que não estamos vivendo nos extremos”, explica.
Para garantir a qualidade da matéria-prima sem comprometer os parâmetros analíticos das uvas, o trabalho técnico explica que foca na adequação do manejo no campo. Bonafé ressalta que a adaptação passa necessariamente pelo entendimento de como as diferentes plantas reagem ao ambiente geográfico. “Quando a gente fala de Vitis vinifera ou Vitis labrusca, não temos uma gama de variedades que vão aos extremos. Tem muitas que se adaptam em ambientes mais frios e ambientes mais quentes, mas não que vão resistir a um aumento de temperatura muito forte ou a uma baixa de temperatura muito brusca”, ressalta.
O agrônomo revela que a Cooperativa Vinícola Aurora inicia um trabalho focado nessa seleção em parceria com universidades para comprovar cientificamente quais variedades pertencem a cada ambiente. Se uma cultivar precoce for implantada em uma área baixa sujeita a frios tardios, o risco de perda por geada torna-se recorrente.
Além da escolha de cultivares, a discussão sobre o impacto do clima abrange as indicações geográficas e o zoneamento agrícola regional. A consolidação de um terroir depende diretamente das condições atmosféricas que moldam a produção ao longo do tempo. Na Europa, as Denominações de Origem Controlada já sentem a alteração no perfil dos produtos em relação ao passado. Na avaliação de Bonafé, embora essa mudança ainda não seja tão perceptível em Bento Gonçalves, o suporte de órgãos de pesquisa, como a Embrapa, é fundamental para ajustar as diretrizes de cultivo e preparar o setor.
Adaptabilidade e tecnologia

Modelos de adaptação já consolidados no país demonstram que a intervenção humana consegue contornar barreiras climáticas. Exemplo disso é a técnica da dupla poda utilizada na região Sudeste para fugir das chuvas torrenciais, além do avanço da viticultura em direção ao centro e norte do Rio Grande do Sul.
Outro diferencial da Serra Gaúcha frente aos polos europeus monocultores é a diversificação de variedades em uma mesma propriedade, o que permite maior margem para diluir o impacto de oscilações na época de colheita. O planejamento de cada safra na Aurora começa meses antes da brotação, entre maio e junho, cruzando os prognósticos de fenômenos como El Niño ou La Niña com a análise da fertilidade das gemas nas videiras.
Com base no cruzamento desses dados, a equipe agronômica define protocolos específicos para a adubação, ajuste na carga de gemas por hectare e intervenções fitossanitárias direcionadas contra doenças fúngicas típicas de anos úmidos, como míldio e botrytis.
A tomada de decisão no campo conta ainda com o suporte de tecnologias de precisão e dados meteorológicos monitorados em tempo real. Estações instaladas nos vinhedos enviam informações de temperatura, volume de chuva e molhamento foliar para softwares que calculam o risco de surgimento de enfermidades. “Temos estações meteorológicas no campo que nos dão o resultado de previsão climática, volume de chuva, temperatura e molhamento foliar. Tudo isso vai para um software e retorna para o produtor a informação de se precisa fazer um tratamento fitossanitário ou não, se pode esperar mais um dia ou dois. Ou seja, cada vez temos mais formas de realizar manejo e ser cada vez mais assertivo”, afirma.
Para determinar o momento ideal da colheita, a avaliação combinada de teor de açúcar (Brix) e sanidade das bagas é associada a ferramentas de previsão do tempo de curto prazo, com precisão de sete a dez dias. Bonafé enfatiza que o agendamento da colheita prioriza critérios técnicos rigorosos. “Quando eu consigo chegar no produtor e fazer uma análise de teor de Brix e sanidade com o equipamento, olho para a questão climática e falo se essa vinha tem condições de esperar para a gente aumentar o grau. Nada de achismo, tudo na questão de ver a situação qualitativa do vinhedo e da uva, olhando para o clima para liberar ou não a colheita”, salienta.
A preparação técnica visa assegurar a estabilidade da atividade agrícola diante das incertezas meteorológicas, permitindo que os agricultores familiares mantenham a sustentabilidade econômica e a resiliência no campo. Bonafé pontua que a proatividade é o único caminho para mitigar prejuízos e evitar o êxodo rural na região. “Nós sabemos que poderá ter chuvas fortes, frios mais tardios e temporais. Sabendo disso, o que a gente pode fazer para tentar minimizar um pouco e fazer com que o produtor também minimize as suas perdas? O objetivo do nosso setor é justamente esse”, fnaliza.
O acompanhamento preventivo, a pesquisa científica e a adoção de tecnologias de precisão continuam a ser as principais ferramentas para resguardar a cadeia produtiva e manter o padrão dos vinhos e espumantes produzidos no município.
