Neste final de outubro, o fenômeno El Niño está se intensificando e deve resultar em chuvas acima do normal no Rio Grande do Sul até dezembro de 2026. A situação preocupa os agricultores da Serra Gaúcha, especialmente aqueles que cultivam uvas, frutas e hortaliças, devido ao excesso de umidade, à diminuição da luz solar e ao risco de tempestades. Especialistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) destacam a importância de um planejamento cuidadoso, monitoramento das condições meteorológicas e a adoção de medidas preventivas nas propriedades rurais.
Uma análise divulgada pela MetSul Meteorologia nesta terça-feira (27) revela que a temperatura da superfície do Oceano Pacífico Equatorial registrou uma anomalia semanal de 3,4°C acima da média na região conhecida como Niño 3.4, indicador crucial do fenômeno. As previsões indicam que o El Niño poderá alcançar seu auge entre novembro e dezembro.
Segundo o Painel El Niño 2026-2027, apresentado por órgãos governamentais, há uma probabilidade superior a 95% de ocorrência de um evento muito intenso durante o trimestre de outubro a dezembro.
Precipitação pode ultrapassar 100% da média em algumas regiões
O professor Eliseu José Weber, que atua no Campus Litoral Norte da UFRGS e no Programa de Pós-Graduação em Sensoriamento Remoto, afirma que as projeções climáticas sugerem anomalias na precipitação que podem variar entre 60% e 100% acima da média mensal até dezembro.
De acordo com Weber, os maiores desvios são previstos para o Norte do Rio Grande do Sul e nas áreas adjacentes à divisa com Santa Catarina. No entanto, isso não implica que todos os municípios da região receberão volumes semelhantes ou que a Serra terá uma quantidade maior ou menor de chuvas.
O prognóstico elaborado pelo Conselho Permanente de Agrometeorologia Aplicada do RS (Copaaergs), sob coordenação da Secretaria Estadual da Agricultura, também indica um excesso de chuvas. O relatório aponta que os acumulados podem exceder a média histórica trimestral em até 200 milímetros em partes do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Weber observa, contudo, que o cenário atual é distinto daquele observado durante os eventos de El Niño em 2023 e 2024, quando outras condições climáticas exacerbaram os impactos no estado. Mesmo com a intensificação do fenômeno atual no Pacífico, ele ressalta que isso não implica necessariamente consequências similares às enchentes ocorridas em 2024.
Culturas vulneráveis incluem uva, pêssego e hortaliças
Na Serra Gaúcha, a vitivinicultura demanda atenção especial. A combinação de chuvas frequentes, alta umidade e redução na radiação solar pode prejudicar o desenvolvimento das videiras e afetar a qualidade das uvas destinadas à próxima colheita.
Weber destaca que a umidade excessiva favorece doenças fúngicas nas plantas. Nos parreirais, problemas como míldio e podridões podem resultar em perdas significativas na produtividade e comprometer a qualidade dos frutos.
Além disso, a escassez de luz solar pode afetar negativamente a maturação das uvas e o acúmulo de açúcares nelas, dependendo da intensidade e duração das condições adversas.
O impacto negativo se estende também para outras culturas essenciais na economia local. Segundo Weber, pêssegos, ameixas e diversas hortaliças poderão enfrentar dificuldades devido ao excesso de chuvas, à persistência da umidade elevada e à diminuição da luminosidade.
Por outro lado, uma maior disponibilidade hídrica pode beneficiar lavouras de grãos e pastagens; no entanto, isso dependerá das condições adequadas do solo. Excesso de chuvas pode acarretar encharcamento do solo, dificultando o plantio e impedindo a passagem de máquinas nas propriedades.
Além das perdas diretas na produção agrícola, as dificuldades enfrentadas pelos agricultores podem impactar o abastecimento local e aumentar os custos ao longo de toda a cadeia produtiva.
Comunidades rurais temem deslizamentos
Os riscos associados ao El Niño vão além das plantações. O professor Clódis de Oliveira Andrades-Filho, integrante do Departamento de Geodésia do Instituto de Geociências da UFRGS, alerta sobre a instabilidade das encostas durante períodos com chuvas intensas.
“A maioria dos terrenos mais suscetíveis a deslizamentos na Serra se encontra nas áreas rurais”, adverte o especialista. Ele recomenda atenção às orientações da Defesa Civil e aos sinais indicadores próximos às áreas agrícolas, residências e estradas.
Alguns sinais alarmantes incluem fissuras no solo, inclinação anormal em árvores ou postes e alterações repentinas na topografia local. Diante dessas evidências, moradores devem evacuar as áreas ameaçadas imediatamente e buscar ajuda das autoridades competentes.
Clódis também sugere investimentos em melhorias estruturais nas propriedades rurais; isso inclui sistemas eficientes de drenagem, terraceamento adequado e cuidado com a vegetação para proteger o solo contra erosão.
Planejamento será essencial até dezembro
Weber enfatiza que este é um momento crítico para os agricultores adotarem estratégias preventivas, ao invés de aguardarem por prejuízos. Ele recomenda procurar orientação técnica especializada para capacitação adequada.
Na Serra Gaúcha, a Emater/RS-Ascar oferece suporte técnico focado em manejo agrícola sustentável e conservação do solo. Da mesma forma, a Embrapa Uva e Vinho localizada em Bento Gonçalves disponibiliza informações técnicas direcionadas aos viticultores.
Outra ferramenta útil é o Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro), gerido pela Secretaria Estadual da Agricultura; este sistema fornece previsões climáticas e indicadores relacionados aos riscos para produção vitivinícola.
É aconselhável também acompanhar boletins meteorológicos regulares junto aos alertas emitidos pela Defesa Civil; esse acompanhamento é especialmente relevante para comunidades rurais situadas em encostas vulneráveis.
Embora as previsões apontem meses críticos pela frente, os especialistas afirmam que a intensidade do El Niño não é o único fator determinante dos impactos nos municípios. Contudo, já está claro que as variações na distribuição das chuvas juntamente com as características topográficas locais serão cruciais para os resultados agrícolas até o final deste ano.
