No dia 4 de outubro de 2026, o Rio Grande do Sul, um estado com histórico de forte envolvimento político e militância, apresentou uma taxa de abstenção de 21,36% no primeiro turno das eleições. Segundo informações do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS), 1.819.041 eleitores não compareceram às urnas, entre os 8.516.465 aptos a votar. O total de votantes foi de 6.697.424, representando 78,64% do eleitorado.
Esse índice de abstenção foi maior que o observado no primeiro turno de 2022, quando a ausência foi de 19,79%, equivalente a 1.698.759 eleitores que não votaram. A comparação entre os dois pleitos indica um aumento de 1,57 ponto percentual na abstenção para as eleições de 2026. Levantamentos indicam que o estado atingiu um recorde histórico em relação à abstenção nas eleições gerais, superando números anteriores.
Essa situação levanta um paradoxo intrigante: como uma sociedade historicamente engajada politicamente pode apresentar índices tão elevados de distanciamento nas eleições?
Para entender o contexto sociológico e histórico desse afastamento, o professor e doutor em História da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Rodrigo Luis dos Santos, examina as raízes dos conflitos partidários gaúchos e a evolução das instituições republicanas, além das mudanças no ativismo comunitário. Ele argumenta que a alta taxa de abstenção em 2026 não é apenas resultado de apatia, mas reflete um processo gradual de desconexão entre a população e o sistema político.
As raízes históricas da politização gaúcha
O perfil combativo e politizado da população gaúcha tem suas origens na colonização do território sul-rio-grandense. O professor explica que a localização geográfica e as disputas territoriais moldaram uma sociedade marcada por conflitos desde os tempos coloniais, quando as terras da região eram alvo de disputas entre os impérios português e espanhol.
Durante o século XIX, essas tensões se intensificaram com guerras civis e lutas políticas dentro do Império do Brasil. Um episódio emblemático desse período foi a Guerra Civil Farroupilha (1835-1845), caracterizada não apenas pelo embate entre farrapos e forças imperialistas, mas também pelas divisões internas entre lideranças locais. Posteriormente, o cenário político imperial continuou dividido entre os partidos Liberal e Conservador.
Com a Proclamação da República em 1889 e a dissolução dos partidos imperiais tradicionais, surgiram no Rio Grande do Sul agremiações estaduais robustas e ideologicamente firmes. O Partido Republicano Rio-grandense (PRR) se consolidou sob a liderança centralizadora de Júlio de Castilhos, enquanto o Partido Federalista se organizou como oposição em torno da figura de Gaspar Silveira Martins.
“O clima político se tornou tão hostil que, em 1893, após a eleição de Júlio de Castilhos, o estado enfrentou uma guerra civil violenta conhecida como Revolução Federalista, ou ‘Guerra da Degola’, devido à prática da degola pelos dois lados”, ressalta o historiador.
Do coronelismo à consolidação partidária
Durante a Primeira República (1889-1930), conforme explica dos Santos, a cultura política no Rio Grande do Sul conviveu com um sistema eleitoral restrito caracterizado por práticas como coronelismo e fraudes eleitorais. Sob o domínio do PRR, o executivo estadual ficou sob controle governista por cerca de quarenta anos, enfrentando oposição significativa em apenas duas ocasiões relevantes.
A primeira disputa eleitoral significativa ocorreu em 1907 quando Fernando Abbott uniu forças opositoras contra Carlos Barbosa Gonçalves, escolhido por Antônio Augusto Borges de Medeiros — figura que governou por vinte e cinco anos. A segunda contestação dramática aconteceu em 1922 com Borges concorrendo ao seu quinto mandato contra Joaquim Francisco de Assis Brasil apoiado pela oposição libertadora; essa rivalidade levou à Revolução de 1923, finalizada somente com o Pacto de Pedras Altas.
A aliança temporária entre as oligarquias gaúchas culminou no final da década de 1920 com a formação da Frente Única Gaúcha (FUG), unindo PRR e Partido Libertador (PL) para apoiar Getúlio Vargas na corrida presidencial. Esse movimento resultou na Revolução de 1930, que levou Vargas ao poder federal até 1945.
Após o término do Estado Novo e com a criação da Justiça Eleitoral, o intervalo entre 1947 e 1962 marcou uma fase próspera para a competitividade partidária no estado. As disputas pelo governo gaúcho ocorreram principalmente entre o Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), com alternâncias frequentes no poder envolvendo figuras como Walter Jobim e Leonel Brizola.
“Entre 1947 e 1962, a política gaúcha foi caracterizada por forte competição eleitoral e identidades partidárias marcantes”, observa dos Santos.
Após o golpe militar em 1964 e um período marcado por eleições indiretas para governador, o restabelecimento da democracia em 1982 trouxe novamente o voto direto, inaugurando quatro décadas repletas de intensa disputa plural entre diferentes partidos políticos como PDS, PMDB e PT. Nomes como Olívio Dutra e Yeda Crusius revezaram-se no comando executivo até a reeleição inédita de Eduardo Leite nos dias atuais. “A trajetória política gaúcha reflete décadas alternadas entre partidos tradicionais enquanto lida agora com um contingente significativo fora das urnas”, conclui o pesquisador.
Sinais de desgaste e mudanças sociocomunitárias
Ao examinar as tendências históricas da participação popular, dos Santos destaca que descontentamento com políticos não é uma novidade no Brasil. Respostas variadas da sociedade civil foram observadas diante das crises institucionais: enquanto a Campanha da Legalidade mobilizou cidadãos em defesa da democracia durante os anos sessenta, períodos autoritários cercearam esses canais democráticos.
Na década seguinte aos anos noventa, pesquisas conduzidas pelo cientista político Marcelo Baquero já identificavam indícios iniciais do desencanto democrático junto à população brasileira. Da mesma forma, os protestos ocorridos em junho de 2013 evidenciaram um descontentamento social expressivo sem necessariamente resultar em maior engajamento nas estruturas partidárias tradicionais.
“O afastamento atual das urnas não deve ser visto apenas como desinteresse ou apatia; é fundamental investigar se representa uma transformação na relação entre cidadãos e instituições”, afirma dos Santos.
Simultaneamente às transformações políticas mencionadas acima, profundas mudanças socioeconômicas ocorreram no Rio Grande do Sul durante a segunda metade do século XX. A transição para uma economia urbana-industrial alterou as formas tradicionais de organização comunitária; laços antes estabelecidos nas áreas rurais passaram a coexistir com novas formas urbanas mais fragmentadas.
Nos últimos vinte anos, as redes digitais ampliaram consideravelmente as capacidades mobilizadoras para debates públicos instantâneos; entretanto esse ativismo digital frequentemente carece da continuidade necessária para formar vínculos institucionais duradouros.
A metamorfose da polarização política
Um aspecto significativo abordado diz respeito à alteração no entendimento sobre polarização política ao longo dos anos. Historicamente considerada um fator que impulsionava participação popular nos eventos políticos locais — atraindo grandes públicos aos comícios — atualmente esse acirramento parece ter gerado um efeito inverso: afastando muitos eleitores das urnas.
“Nas últimas décadas houve uma transformação na polarização política que passou a ter conotações mais afetivas; adversários políticos são vistos não apenas como defensores distintos mas sim como ameaças aos valores identitários”, analisa dos Santos.
De acordo com Rodrigo Luis dos Santos, essa mudança não pode ser atribuída simplesmente à falta interesse pela política; é necessário considerar como mudou a percepção sobre as disputas políticas.
“As condições sob as quais percebemos conflitos políticos mudaram: antes eram vistas como disputas coletivas capazes despertar sentimentos comunitários; agora podem ser associadas à hostilidade ou desconfiança”, conclui ele sobre essa questão relevante para entender os novos padrões eleitorais no estado gaúcho.
Abstenção: sintoma de desconexão gradual
Sob uma perspectiva histórica crítica, os índices inéditos registrados na abstenção — alcançando os 21,36% nas eleições gerais deste ano — devem ser compreendidos em um contexto mais amplo ao invés serem considerados eventos isolados ou meramente acidentais.
Esse fenômeno reflete questões históricas relacionadas à representatividade política junto à fragilidade institucional contemporânea aliada às novas realidades sociais vivenciadas pelos cidadãos modernos.
“O desafio atual combina questões históricas sobre representação com transformações recentes nas relações políticas; assim sendo,a abstenção é um indicador significativo sobre as interações sociais contemporâneas sem necessariamente indicar apatia ou rejeição à democracia”, enfatiza dos Santos ao encerrar sua análise sobre esse tema complexo envolvendo ações cidadãs ao longo do tempo.
